As nove da manhã, a reunião empacou e ninguém sabia dizer por quê. As ideias vinham devagar, as palavras trocavam de lugar, havia uma certa névoa. A maioria das pessoas teria dito que estava cansada, ou com sono, ou que o tema era difícil. Poucos teriam apostado que o problema era o copo d’água que ficou para depois do café.
A água é o nutriente mais esquecido da medicina preventiva. Não tem glamour de suplemento, não tem marketing de laboratório, não cabe num comprimido. É barata, é transparente, e não combina com a narrativa de que cuidar da saúde exige esforço e investimento. Talvez por isso a gente viva, coletivamente, numa desidratação leve e crônica que a maioria nem percebe.
O problema começa antes de a sede aparecer. Pesquisadores da Universidade de Connecticut conduziram dois estudos rigorosos, um com homens e outro com mulheres jovens e saudáveis, para entender o que acontece quando o corpo perde apenas 1 a 2% da massa corporal em água. Uma perda que corresponde a menos de um quilo e meio numa pessoa de 70 kg e que ocorre facilmente num dia comum, sem exercício, sem calor excessivo, só pelo vapor que sai a cada respiração. Os resultados foram parecidos nos dois grupos, com nuances interessantes: os homens apresentaram queda na atenção e na memória de trabalho. As mulheres mostraram algo talvez mais relevante para o dia a dia: piora significativa de humor, mais dor de cabeça, mais dificuldade de concentração e mais ansiedade, mesmo sem alteração nos testes cognitivos formais. Desidratação leve, em mulheres, pode se parecer com um dia difícil de um jeito que é quase impossível de distinguir.
Outro estudo, publicado em revista europeia de nutrição, foi ainda mais preciso. Os pesquisadores controlaram todos os fatores que poderiam contaminar o resultado e, ainda assim, apenas com restrição voluntária de água suficiente para atingir 1,4% de desidratação, os voluntários apresentaram piora de humor, memória de trabalho e funções executivas. A conclusão foi direta: esse nível de desidratação é típico de um dia de trabalho comum para muita gente.
O cérebro sente antes do corpo. Quando a ressonância magnética observa um crânio desidratado, encontra expansão ventricular, que é uma espécie de retração do tecido cerebral, e aumento compensatório do fluxo sanguíneo, como se o órgão estivesse tentando trabalhar mais para entregar o mesmo resultado. Não é drama, é fisiologia. O cérebro é composto por cerca de 75% de água. Quando esse percentual cai um pouco, as conexões ficam mais lentas, a sinapse exige mais esforço, e o que parece cansaço mental pode ser, em boa parte, falta de hidratação.
O Ministério da Saúde recomenda entre dois e três litros de água por dia para adultos saudáveis, com variação pelo peso, pelo clima e pela atividade física. No Brasil, num país quente e com jornadas longas, essa meta é rotineiramente não cumprida. A sede, que seria o sinal de alarme natural, não é confiável: aparece tarde, especialmente em idosos e em pessoas muito ocupadas. Quando a pessoa finalmente sente sede, já está desidratada.
A boa notícia é que o efeito é reversível rápido. Beber água melhora o humor e a cognição em questão de minutos em quem estava levemente desidratado. Não precisa de fórmula cara, aplicativo de monitoramento, garrafa inteligente. Precisa de um copo na mesa, de olhar a cor da urina de vez em quando (amarelo claro é o alvo, amarelo escuro é sinal de alerta), e de não esperar a sede mandar a conta.
Talvez o inimigo seja mesmo o esquecimento: o hábito de empurrar o copo para depois da próxima tarefa, depois da reunião, depois do almoço. Um copo de água esquecido na mesa não pesa, não dói. Avisa só depois, no meio da tarde, quando o dia inteiro parece ter ficado torto sem razão aparente. A água não muda. O cérebro muda. E às vezes o que parece uma segunda ruim é só uma manhã seca.
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