O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de assassinatos desde 2012, com queda de 8,2% nas Mortes Violentas Intencionais (MVI) em relação ao ano anterior. Mas o retrato da violência no país foi marcado por movimentos em direções diferentes. Feminicídios e mortes decorrentes de intervenção policial cresceram, assim como maus-tratos contra crianças e adolescentes, e as fraudes digitais se consolidaram como o principal crime patrimonial do país.
Os dados fazem parte do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado na quinta-feira pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Ao todo, o país teve 40.775 vítimas de assassinatos no ano passado, o que representa uma taxa de 19,1 casos por 100 mil habitantes. Em relação ao primeiro ano da série histórica, o índice caiu 31%.

Para Roberto Uchôa, conselheiro do FBSP e pesquisador na Universidade de Coimbra, uma combinação de fatores explica o cenário de queda: além de programas de segurança, a mudança na pirâmide etária, com menos jovens, e o domínio de regiões pelo crime.
— Pesquisadores avaliam que a redução estaria relacionada à dinâmica de confrontamento de facções. Onde não há conflito entre organizações criminosas, as taxas são menores. Um exemplo é São Paulo, onde o PCC é hegemônico — explica.
A categoria reúne homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais. Quando considerado apenas o homicídio doloso, a redução foi de 10%, para uma taxa de 15,4 por 100 mil habitantes. Com isso, o país atingiu, dois anos antes do prazo, a meta estabelecida pelo Sistema Único de Segurança Pública de chegar a 16 homicídios por 100 mil habitantes até 2027.
A antecipação, porém, deve ser analisada com cautela, segundo Raquel Souza, doutora em Ciências Sociais e pesquisadora do FBSP:
— A boa notícia precisa ser, infelizmente, relativizada. O país precisa encontrar mecanismos de controle do uso da força mais efetivos, já que tais dados mostram que o Estado, em suas múltiplas esferas e poderes, tem sido parte do problema e não apenas das soluções para a segurança pública brasileira.
Desigualdade racial
A desigualdade racial permanece como marca da violência letal. Negros representam 79,7% das vítimas de MVI e 82% dos mortos por policiais. Entre as vítimas de intervenção policial, 99% são homens, e 46% têm entre 20 e 29 anos.
A redução dos assassinatos também é desigual no território nacional. O Nordeste apresentou a maior taxa de MVI, com 31,6 vítimas por 100 mil habitantes, seguido pelo Norte, com 25,3. Maranguape (CE), pelo segundo ano consecutivo, lidera o ranking de municípios, com 100,3 mortes por 100 mil habitantes — mais de cinco vezes a média nacional. Na sequência aparecem Eunápolis (BA), com 85,1, e Maracanaú (CE), com 80,7.
O anuário associa a violência nesses municípios, em grande parte, a disputas entre facções criminosas e à localização próxima a rodovias e outros corredores utilizados nos fluxos logísticos do tráfico de drogas. A Bahia tem cinco cidades entre as dez mais violentas; o Ceará, três; Pernambuco e Paraíba, uma cada.
Na contramão da queda das mortes violentas em geral, as polícias brasileiras mataram 6.602 pessoas em 2025 — 18 por dia. Foi o maior número da última década e representa uma alta de 5,4% em relação ao ano anterior. Em dez anos, o crescimento chegou a 55,7%. Uma em cada seis mortes violentas intencionais no país foi causada por policiais.

A Operação Contenção, realizada em outubro nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio, contribuiu para o resultado, com 122 mortos, cinco deles policiais. Mas, pelo sétimo ano consecutivo, o Amapá teve a maior taxa de mortes provocadas pelas polícias. Bahia, Sergipe e Pará aparecem na sequência. O anuário aponta como desafios centrais a falta de mecanismos para distinguir o uso legítimo da força de episódios de execução sem necessidade comprovada e a cooptação de agentes públicos pelo crime.
A violência letal contra mulheres também seguiu trajetória diferente da tendência geral. O país registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número da última década e uma alta de 4% em relação ao ano anterior. Foram mais de quatro mulheres mortas por dia em razão do gênero.

A residência continua sendo o local mais perigoso: 62,5% dos crimes ocorreram dentro de casa. Em 79,8% dos casos identificados, o autor era o parceiro ou ex-parceiro da vítima. A arma branca foi utilizada em 50,8% dos feminicídios. Mulheres negras representaram 65,1% das vítimas.
O país da fraude digital
Se a violência letal diminuiu, os crimes patrimoniais encontraram novas formas de expansão. As fraudes digitais se consolidaram como o crime patrimonial mais comum do país. Foram 2,2 milhões de ocorrências de estelionato em 2025 — mais de 250 por hora —, um crescimento superior a 400% em relação a 2018.
A taxa nacional chegou a 1.059 registros por 100 mil habitantes, acima da registrada nos Estados Unidos, de 882. São Paulo lidera o ranking, com 1.808 registros a cada 100 mil habitantes.
O número real pode ser ainda maior. Pesquisa do FBSP divulgada em março mostrou que 15,8% da população com 16 anos ou mais relatou ter sido vítima de golpe ou ter perdido dinheiro pela internet ou pelo celular no ano anterior. O percentual equivale a 26,3 milhões de brasileiros.
A resposta do sistema de Justiça, porém, é limitada: apenas 2,8% das ocorrências policiais de estelionato em 2025 se transformaram em processos judiciais. Desde 2019, o crime depende, em regra, de representação da vítima para que o Ministério Público possa oferecer denúncia.
Segundo pesquisadores do FBSP, as facções criminosas PCC e Comando Vermelho aparecem em diferentes investigações ligadas à exploração de fraudes.
Entre os golpes mais relatados estão a clonagem ou troca de cartão, com 45%; o golpe do WhatsApp, com 34%; a falsa central bancária, com 31%; e os golpes do Pix, com 24%. Fraudes em que criminosos se passam por funcionários de bancos, empresas ou órgãos públicos cresceram cerca de 140% na América Latina, segundo dados da empresa BioCatch.
O FBSP cita experiências da Austrália e de Singapura como exemplos de estratégias de combate que integram bancos, empresas de tecnologia, operadoras de telefonia e órgãos públicos para bloquear contas, números de telefone e sites utilizados em fraudes.
O Globo








