Logo após a classificação da Argentina para a segunda semifinal de Copa do Mundo seguida, uma pergunta mudou a expressão de Lionel Scaloni. Sério, o técnico sequer deixou o repórter concluir o questionamento que abordava a semifinal contra a Inglaterra sob o prisma da rivalidade acirrada desde a Guerra das Malvinas.
— A mensagem é que é uma partida de futebol. Não busquemos mais nada.
O técnico até tentou. Mas basta conversar com os argentinos pelas ruas de Atlanta, cidade do jogo desta quarta, para o assunto aparecer.
— Já tínhamos que ter voltado para a Argentina. Nossa viagem estava prevista para terminar em Kansas (local da vitória sobre a Suíça, pelas quartas). Mas, quando vimos que seria contra a Inglaterra, movemos o mundo para estender. Nem vamos ficar para a decisão, se passar — conta Matías Marin, de 22 anos, que sequer era nascido quando a guerra ocorreu.

A disputa em torno das ilhas, localizadas a 600km de distância da Patagônia, precede à existência do futebol. Mas a tentativa fracassada do governo argentino de retomá-las — levando à morte de 650 em 1982 —elevou o nível da tensão, que transbordou para dentro de campo.
A verdade é que a questão já acompanhava a caminhada argentina nesta Copa. Um dos trechos da música abraçada pela torcida na campanha prega que o sonhado tetracampeonato é “pelas Malvinas, por Diego (Maradona) e pela última de Leo (Messi)”. Agora, a música ganhou mais peso.
— Prefiro perder para o Brasil do que para a Inglaterra, sem dúvidas — confessa Daniel Dure, que havia deixado às forças armadas apenas três anos antes da guerra. — Mas que bom que ultimamente só temos vencido (risos).

Se as Malvinas unem o país, sua influência no futebol divide opiniões. Alguns concordam com Scaloni e defendem que a discussão não deveria ser levada para dentro de campo.
— Reconheço que há um componente histórico. Mas é só mais um jogo — ressalva Alexis Morales, de 47 anos. — Não vai mudar o que houve lá atrás. E nem o que ainda precisa acontecer: devolverem as Malvinas.
Esta confusão de sentimentos se deve principalmente a Maradona, que tratou o confronto como um acerto de contas para o povo argentino antes das quartas da Copa de 1986. Ao decidir o jogo com um dos gols mais bonitos da história dos Mundiais e outro de mão, promoveu uma catarse coletiva. Desde então, os duelos sempre ocorreram sob a sombra da política.
Scaloni tem seus motivos para pedir que tratem só como um jogo. Os ânimos já estão acirrados. No último domingo, as ruas de Miami foram palco de brigas entre argentinos, comunidade numerosa da cidade; e ingleses, que acompanhavam o jogo com a Noruega.
— A rivalidade com o Brasil é só esportiva. Com os piratas é mais intensa — admite Leandro Guerrero, usando o termo através do qual muitos argentinos se referem aos ingleses para destacar o passado corsário.

O governo argentino ligou o alerta com a possibilidade de membros das barras proibidos de frequentar estádios no país viajarem para os EUA. De acordo com a imprensa local, o controle nos aeroportos foi reforçado e uma reunião convocada com o FBI e as polícias de Miami e do estado da Geórgia (onde fica Atlanta). Será recomendado o aumento do efetivo policial nas duas cidades e da segurança interna do Hard Rock Stadium.
— Estamos com a camisa do Boca Juniors porque achamos que chama menos atenção. Vamos deixar para usar a da Argentina só no estádio — explicou Bruno Conti, de 25 anos, que passeava por Atlanta. — Para eles, as Malvinas não são uma questão como para nós. Mas tem o gol de mão que não aceitam até hoje.

No centro desta espiral de tensão e nacionalismo está Messi. Aos 39 anos, o camisa 10 irá enfrentar a Inglaterra pela primeira vez.
— Deus colocou esse jogo no caminho do Messi. Se ainda tinha uma coisa que faltava a ele era ganhar da Inglaterra — vislumbra Gustavo Magnifico, de 53 anos.
Hoje, é ponto pacífico entre os torcedores que Messi e Maradona ocupam o mesmo olimpo. Mas os que preferem Diego citam sempre sua defesa incondicional da Argentina e o status de herói, em parte alcançado pelo que fez contra os ingleses. O destino, agora, prega uma peça com Lionel em seus prováveis últimos dias com a camisa albiceleste.
— Nossos pais preferem o Maradona. Mas acho que, se o Messi ganhar da Inglaterra, até os mais velhos vão se render — projeta Bruno Conti.
O Globo







