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Home Eleições

Sem apostar em nenhum candidato à Presidência, Centrão prioriza disputa ao Congresso

O objetivo principal dos grandes partidos do grupo político é manter relevância política e os cofres cheios

Napoleão Soares Por Napoleão Soares
08/08/2026
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Honestidade é prioridade para 72% dos eleitores

Uma janela decisiva para as eleições de outubro se fechou na quarta-feira, 5. O fim do período das convenções partidárias selou o que já se anunciava há semanas: algumas das principais legendas do centro, em especial da centro-direita, escolheram se manter neutras no primeiro turno da eleição nacional, sem apoiar nenhum dos candidatos à Presidência da República. Com a exceção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fechou já no início da pré-campanha alianças com as principais siglas da esquerda, todos os demais postulantes ao comando do país caminharão apenas com suas próprias legendas.

O tamanho do exército que ficou fora do páreo presidencial não é desprezível. Somados, União Brasil, PP, Republicanos, MDB, Podemos e PSDB ocupam 43% das cadeiras do Congresso (223 deputados e 31 senadores), além de abrigarem quinze governadores. Juntos, detêm quase metade do Fundo Eleitoral (2 dos 5 bilhões de reais) e cerca de 40% do horário no rádio e na TV. A adesão de uma sigla, portanto, não seria apenas simbólica, mas garantiria palanques nos estados e ampliaria o tempo de exposição dos candidatos. Fora da corrida ao Planalto, a estratégia do centro agora será garantir grandes bancadas, fundamental para manterem poder político e financeiro e permanecerem relevantes, independentemente de quem seja o presidente eleito.

O tamanho da abstenção partidária para a corrida presidencial é inédito. No último pleito, em 2022, apenas o PSD, entre as siglas médias e grandes, optou por não lançar candidatura própria ou compor a coligação de algum presidenciável no primeiro turno. Naquela eleição, PP e Republicanos marcharam desde o início com Jair Bolsonaro, enquanto MDB, PSDB e Podemos ficaram com Simone Tebet. Já o União Brasil lançou a senadora Soraya Thronicke ao Planalto. Ironicamente, o mesmo PSD que caminhou sozinho há quatro anos é o único desse bloco a lançar um presidenciável, o ex-governador Ronaldo Caiado, que também falhou em atrair outras legendas, o que culminou com o presidente e fundador do partido, Gilberto Kassab, assumindo a posição de vice. O PSDB, que rivalizou com o PT em quase todas as eleições nacionais da redemocratização até o advento do bolsonarismo, não terá candidato pela primeira vez para priorizar a reconstrução de sua bancada no Congresso, esfacelada em razão da derrocada eleitoral da sigla. Outro fato notável é que o MDB, principal sigla da oposição à ditadura, não abraçará um candidato à Presidência pela primeira vez em vinte anos. Na convenção da legenda, o presidente Baleia Rossi apontou que a neutralidade é um trunfo, permitindo que os candidatos se alinhem conforme for necessário nos estados. “A liberação nacional acaba unindo e pacificando, deixando o partido mais forte para que nos estados tenha um resultado bastante positivo”, disse.

SOBREVIVÊNCIA - Ciro Nogueira: PP neutro enquanto busca vitória no Piauí
SOBREVIVÊNCIA - Ciro Nogueira: PP neutro enquanto busca vitória no Piauí (@cironogueira/Instagram)

Por trás dessa mudança está uma transformação mais profunda na relação entre Executivo e Congresso. Antes, declarar apoio a um candidato ao Planalto era uma forma de demonstrar lealdade antecipada e garantir espaço no futuro governo, com cargos e ministérios. Esses ativos perderam força, no entanto, diante das emendas parlamentares impositivas, que ampliaram significativamente o poder do Legislativo sobre a alocação dos recursos públicos — o montante pago em emendas tem batido recordes todos os anos (deve chegar a 61 bilhões de reais em 2026). Para o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, a chave do cofre hoje pertence muito mais ao Congresso do que ao Executivo. “A estratégia muda sensivelmente, uma vez que os partidos não precisam estar alinhados a um governo para conseguir verbas”, diz.

A nova tática também atende aos interesses dos caciques nacionais. A federação União Progressista, composta por União Brasil e PP, confirmou na última semana a tendência de neutralidade que já vinha se desenhando há meses, para preservar a liberdade das lideranças estaduais. O presidente do PP, Ciro Nogueira, por exemplo, tenta se reeleger ao Senado pelo Piauí, onde Lula tem mais de 70% da preferência do eleitorado. Da mesma maneira, Antonio Rueda, cacique do União Brasil, vai disputar um cargo eletivo pela primeira vez, o de deputado federal pelo Rio, onde o candidato de Lula, Eduardo Paes (PSD), lidera, isolado, a corrida ao governo — assim, o União Brasil ficará neutro no estado.

ESTRATÉGIA - Aécio Neves, presidente do PSDB: foco da sigla será recuperar relevância no Parlamento
ESTRATÉGIA - Aécio Neves, presidente do PSDB: foco da sigla será recuperar relevância no Parlamento (Carol Nogueira/PSDB-MG/.)

Outra questão que influencia é a histórica fragmentação dessas legendas, o que impede um alinhamento automático a uma candidatura de esquerda ou de direita. Sem identidade ideológica definida, elas sempre funcionaram como organizações mais pragmáticas, capazes de reunir lideranças de diferentes correntes políticas em torno de objetivos eleitorais e de governo. Essa elasticidade, contudo, tornou-se mais evidente nos últimos anos. A polarização nacional fortaleceu lideranças personalistas e enfraqueceu os comandos partidários, reduzindo a capacidade das executivas nacionais de arbitrar conflitos internos. Cada vez mais, prevalece a lógica regional, em que diretórios estaduais tomam decisões de acordo com seus interesses locais. Isso ficou evidente na convenção do Republicanos, na terça 4, quando nove diretórios queriam dar apoio a Flávio Bolsonaro e um, a Lula, enquanto dezessete defenderam a independência. “O Republicanos está presente de forma expressiva em toda a federação. Essa capilaridade impõe o dever de considerar as particularidades de cada estado na tomada de decisão, respeitando as estratégias políticas locais e as diferentes composições construídas ao longo dos últimos anos”, diz trecho de nota que selou a posição da legenda.

Apesar de ser o principal motivo, a reorganização do jogo político não explica sozinha a prevalência da neutralidade na campanha. O fato é que nenhum dos presidenciáveis conseguiu atrair essas legendas, em especial os candidatos de oposição, que negociaram por mais tempo. Flávio tinha esperança de acordo até as últimas horas. Embora ele apareça muito próximo de Lula nas pesquisas, sua candidatura segue cercada pela expectativa negativa de novas revelações do escândalo do Banco Master, o que eleva o custo político de uma adesão e o risco de contaminação pelas investigações. Os demais nomes não se mostraram competitivos: Caiado, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) não têm dois dígitos nas pesquisas.

TÁTICA - Rueda: cacique estreia em eleição com o União Brasil fora do páreo nacional
TÁTICA - Rueda: cacique estreia em eleição com o União Brasil fora do páreo nacional (@antonio_de_rueda/Instagram)

A abstenção em massa de grandes partidos na corrida presidencial é um fato novo. Embora também seja fruto de questões circunstanciais, como as dificuldades de algumas candidaturas, ela expõe uma mudança no jogo político, que tem como pano de fundo o empoderamento do Congresso. A nova realidade terá implicações práticas, como a redução da exposição de presidenciáveis no horário eleitoral. Em uma campanha acirrada, o horário na TV segue sendo um ativo valioso. Para o marketing político, hoje ele funciona como um gatilho: sinaliza o início efetivo da disputa e incentiva o eleitor a buscar mais informações nos meios de sua preferência, como redes sociais, podcasts ou outros canais digitais. De toda forma, os novos formatos mostram que, se a dinâmica política mudou, as possibilidades de propaganda também se ampliaram. Agora, com as raias para a maratona ao Planalto já ocupadas, fica mais claro projetar como poderá ser a corrida de cada um — resta saber quem terá a estratégia vencedora ao final.

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