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Home Tensão Global

Qual a origem da rivalidade entre Israel e Irã

Napoleão Soares Por Napoleão Soares
28/02/2026
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Qual a origem da rivalidade entre Israel e Irã

Os ataques de Israel contra o Irã neste sábado, em conjunto com os Estados Unidos, são o mais recente capítulo de uma longa rivalidade entre os dois países.

Israel e Irã protagonizam há anos uma disputa sangrenta que virou uma das principais fontes de instabilidade no Oriente Médio e cuja intensidade varia de acordo com o momento geopolítico.

Para Teerã, Israel não tem o direito de existir. Os governantes iranianos consideram o país o “pequeno Satanás” — o aliado no Oriente Médio dos Estados Unidos, que chamam de “grande Satanás”.

Já Israel acusa o Irã de buscar a produção de uma arma nuclear, além de financiar grupos “terroristas” e realizar ataques contra seus interesses movidos pelo antissemitismo dos aiatolás.

No início da manhã deste sábado, o governo de Israel anunciou uma série de ataques coordenados com o governo dos Estados Unidos contra o Irã como parte de uma operação batizada de “Fúria épica”.

Segundo as informações oficiais, o Exército de Israel atacou ao menos cinco cidades iranianas: Teerã, Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah.

O gabinete do líder supremo do Irã e o gabinete presidencial em Teerã também teriam sido atacados, mas, segundo o Irã, os governantes não foram atingidos.

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã prometeu uma “resposta esmagadora”, afirmando que os ataques ocorreram “mais uma vez durante negociações” com Washington.

Israel e Estados Unidos já haviam atacado o Irã em junho passado, em um conflito de 12 dias no qual forças americanas atingiram três importantes instalações nucleares iranianas.

Como começou a rivalidade entre Israel e Irã

Soldados em uma barricada no Irã.Getty Images
O triunfo da Revolução Islâmica de 1979 no Irã marcou o início da rejeição iraniana a Israel

As relações entre Israel e o Irã foram bastante cordiais até 1979, quando a chamada Revolução Islâmica dos aiatolás conquistou o poder em Teerã.

Embora tenha se oposto ao plano de fatiamento da Palestina que resultou na criação do Estado de Israel em 1948, o Irã foi o segundo país islâmico a reconhecer Israel, depois do Egito.

O Irã era uma monarquia na qual reinavam os xás da dinastia Pahlavi e um dos principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Assim, o fundador de Israel e seu primeiro chefe de governo, David Ben-Gurion, procurou e conseguiu a amizade iraniana como forma de combater a rejeição de seus vizinhos árabes ao novo Estado.

Mas a Revolução de Ruhollah Khomeini, em 1979, derrubou o xá e impôs uma república islâmica que se apresentava como defensora dos oprimidos e tinha como principais marcas a rejeição ao “imperialismo” americano e a Israel.

O novo regime dos aiatolás rompeu as relações com Israel, deixou de reconhecer a validade do passaporte de seus cidadãos e tomou posse da embaixada israelense em Teerã para cedê-la à Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que então liderava a luta por um Estado palestino, contra o governo israelense.

Alí Vaez, diretor do Programa para o Irã do International Crisis Group, um centro de análise, disse à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, que “a aversão a Israel foi um pilar do novo regime iraniano porque muitos de seus líderes haviam treinado e participado de ações de guerrilha com palestinos em lugares como o Líbano e tinham uma grande simpatia por eles”.

Além disso, acredita Vaez, “o novo Irã queria se projetar como uma potência pan-islâmica e levantou a causa palestina contra Israel, que os países muçulmanos árabes tinham abandonado”.

Assim, Khomeini começou a reivindicar a causa palestina como sua própria. E grandes manifestações pró-Palestina, com apoio oficial, tornaram-se habituais em Teerã.

Vaez explica que em Israel “a hostilidade ao Irã só começou mais tarde, na década de 1990, porque antes o Iraque de Saddam Hussein era percebido como uma maior ameaça regional.”

Tanto é que o governo israelense foi um dos mediadores que tornou possível o chamado Irã-Contra, o programa pelo qual os Estados Unidos desviaram armamento para o Irã, para que usassem na guerra contra o vizinho Iraque, entre 1980 e 1988.

Mas, com o tempo, Israel começou a ver no Irã um dos principais perigos para sua existência. E a rivalidade entre os dois passou das palavras para os fatos.

Khomeini rodeado por multidão que ergue os braços em sua direção.Getty Images
Khomeini e outros líderes da Revolução Islâmica simpatizavam com a causa dos palestinos contra Israel

Uma ‘guerra nas sombras’

Vaez lembra que o regime iraniano enfrentava também a Arábia Saudita, outra grande potência regional, e tinha consciência de que o Irã é persa e xiita — em um mundo islâmico maioritariamente sunita e árabe.

“O regime iraniano percebeu seu isolamento e começou a desenvolver uma estratégia destinada a evitar que seus inimigos pudessem um dia atacá-lo em seu próprio território”, explica o especialista.

Assim, proliferou uma rede de organizações alinhadas a Teerã que realizavam ações armadas favoráveis aos seus interesses.

A libanesa Hezbollah, listada como terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia, é a mais proeminente. Hoje, o chamado “eixo da resistência” iraniano se estende pelo Líbano, Síria, Iraque e Iêmen.

Israel não ficou de braços cruzados e trocou com o Irã e seus aliados ataques e outras ações hostis, muitas vezes em outros países, onde financia e apoia grupos armados que combatem os pró-iranianos.

O estado da relação entre o Irã e Israel foi descrito como uma “guerra nas sombras”, na qual ambos já realizaram ataques mútuos sem que, em muitos casos, nenhum dos governos tenha admitido oficialmente sua participação.

Em 1992, o grupo Jihad Islâmico, próximo ao Irã, atacou a embaixada israelense em Buenos Aires, provocando 29 mortes.

Pouco antes, o líder do Hezbollah, Abbas al-Musawi, tinha sido assassinado em um atentado amplamente atribuído aos serviços de inteligência de Israel.

Para Israel, sempre foi uma obsessão minar o programa nuclear iraniano e evitar que chegue o dia em que os aiatolás tenham armas nucleares.

Em Israel não se acredita que o programa nuclear iraniano tenha apenas fins civis. E é amplamente aceito que foram os serviços israelenses que, em colaboração com os Estados Unidos, desenvolveram o vírus de computador Stuxnet, que causou sérios danos às instalações nucleares iranianas na primeira década de 2000.

Teerã também denunciou a inteligência israelense como responsável pelos atentados contra alguns dos principais cientistas encarregados de seu programa nuclear.

O caso mais conhecido foi o assassinato em 2020 de Mohsen Fakhrizadeh, considerado o principal responsável pelo programa. Mas o governo israelense nunca aceitou a acusação de seu envolvimento nas mortes de cientistas iranianos.

Israel, junto a seus aliados ocidentais, acusam o Irã de estar por trás dos ataques com drones e foguetes sofridos em seu território no passado, assim como de ter realizado vários ataques cibernéticos.

Outro motivo de confronto foi a guerra civil desencadeada na Síria a partir de 2011.

A inteligência ocidental aponta que o Irã enviou dinheiro, armas e instrutores para apoiar as forças do presidente Bashar Al-Assad contra os insurgentes que tentavam derrubá-lo.

Isso disparou o alerta em Israel, que acredita que a vizinha Síria é uma das principais rotas por onde os iranianos enviam armamentos e equipamentos para o Hezbollah no Líbano.

De acordo com o portal de inteligência americano Stratfor, tanto Israel quanto o Irã realizaram ações na Síria destinadas a dissuadir o outro de lançar um ataque em larga escala.

Em 2021, a “guerra nas sombras” chegou ao mar quando Israel apontou o Irã como responsável pelos ataques contra navios israelenses no Golfo de Omã. E o Irã, por sua vez, acusou Israel de atacar seus navios no Mar Vermelho.

Rajadas de luz sobre cidade à noiteReuters
O sistema antimísseis de Israel interceptou a maioria dos mísseis disparados pelo Irã nesta terça-feira

Desde os ataques de 7 de outubro de 2023 realizados pelo Hamas contra Israel e a reação militar massiva lançada pelo Exército israelense em Gaza, analistas e governos de todo o mundo expressaram preocupação de que o conflito pudesse provocar uma reação em cadeia na região — e um confronto aberto e direto entre iranianos e israelenses.

Em 1º de abril de 2024, um ataque aéreo israelense ao consulado do Irã na Síria matou dois generais de alto escalão.

No que pareceu uma retaliação, o Irã atacou Israel com drone e mísseis em 13 de abril.

Até então, tanto Irã como Israel evitavam elevar as hostilidades entre eles a combates em larga escala.

A situação se tornou ainda mais imprevisível a partir de junho de 2025, com a ofensiva israelense à qual os Estados Unidos se juntaram, contra alvos iranianos ligados ao programa nuclear do país.

Com os bombardeios desde sábado (28/02), as dúvidas sobre o rumo que o conflito deve tomar se tornaram ainda maiores.

BBC

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