A morte de Gerson de Melo Machado, o Vaqueirinho, não é uma fatalidade isolada. É o último capítulo de uma vida marcada por surtos, vulnerabilidade extrema e um Estado que, passo após passo, desistiu dele. Nada do que aconteceu ontem na Bica de João Pessoa deveria surpreender. Surpreendente, na verdade, é termos permitido que chegasse a esse ponto.
Gerson tinha 10 anos quando apareceu pela primeira vez em vídeos que circularam pela cidade, já envolvido em pequenos furtos e já sendo alvo de violência. Era uma criança em evidente sofrimento. Uma década depois, acumulava passagens pela polícia, crises psiquiátricas, internações breves, laudos apontando esquizofrenia e total incapacidade de compreender seus próprios atos. O que faltava não era diagnóstico, era cuidado.
O caso do caixa eletrônico, a ida à Cidade da Polícia, o episódio em que jogou uma pedra em uma viatura, a reincidência, a repetição de surtos. Tudo desenhava, diante dos olhos de todos, um padrão claro de desorganização mental, perigo para si mesmo e impossibilidade de permanecer sem acompanhamento permanente. Mesmo assim, nenhuma porta permaneceu aberta tempo suficiente. Entrava e saía do sistema como quem gira catracas, sem que o básico fosse oferecido: tratamento continuado, internação adequada, proteção social.
Domingo, num surto típico de sua condição, escalou uma estrutura de seis metros e entrou no recinto de uma leoa. Não avançou contra o animal. Não desafiou ninguém. Foi atacado. Ele não precisava morrer assim. Precisava de atendimento. De suporte.
O discurso fácil de que tudo melhora quando se fecham manicômios e se entrega tudo aos centros de atenção psicossocial ignorou um detalhe elementar, quase infantil: casos graves existem. Sempre existiram. E desaparecem das estatísticas não porque melhoraram, mas porque foram empurrados para as ruas, para as madrugadas, para as delegacias, para os becos, para as jaulas de um zoológico.
A luta antimanicomial nasceu como crítica legítima a um sistema cruel. Mas foi sequestrada por quem transformou qualquer forma de internação em palavrão. Fecharam estruturas sem substituição proporcional, sem rede, sem alternativa, sem planejamento. E o resultado está diante de nós: surtos à luz do dia, famílias desesperadas, violência, vulneráveis completamente expostos e mortes que poderiam ser evitadas.
Não é culpa da Bica. Não é culpa da polícia. Não é culpa de quem testemunhou a tragédia. É culpa de um modelo quebrado, remendado por discursos ideológicos que jamais levaram em conta quem mais precisava de proteção.
A pergunta que fica é simples e brutal: vamos esperar outro Gerson ser jogado, metaforicamente ou literalmente, na cova dos leões para admitir que o sistema falhou?
Porque falhou. E continua falhando. E enquanto ninguém tiver coragem de reabrir o debate de forma madura, responsável e livre de slogans, a sociedade continuará enterrando vidas que poderiam ter sido salvas.
Por: Napoleão Soares









