Vecina Neto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), defende que a discussão eleitoral precisa sair da lógica do “mais verbas” e entrar na reorganização da gestão. O texto foi publicado originalmente no site The Conversation, que reúne artigos assinados por cientistas.
Financiamento importa, mas não resolve tudo
O argumento central é direto: o SUS precisa, sim, de recursos. No entanto, apostar apenas em aumento de orçamento não bastaria para enfrentar os desafios atuais. O modelo de financiamento criado para expandir o sistema cumpriu um papel importante no passado, mas hoje estaria defasado diante de uma população com mais idosos, mais pacientes crônicos e maior necessidade de acompanhamento contínuo.
Na visão do professor, o foco não deve ser somente ampliar a oferta de serviços, e sim organizar o sistema. A frase resume a tese: procedimento não organiza rede; gestão, sim.
Isso aparece com clareza no exemplo de hospitais de pequeno porte. Eles atendem parte da população, mas não resolvem casos de alta complexidade, como cirurgia cardíaca ou tratamento oncológico. Ainda assim, seguem consumindo recursos em um modelo baseado no pagamento por procedimentos. Quando surge a ideia de fechar uma unidade e comprar o serviço em outro lugar, o conflito se instala: o dinheiro acompanha o paciente ou continua preso ao município? Em geral, a segunda opção prevalece.

Rede regional segue mais lógica que a fragmentação municipal
O diagnóstico apresentado no texto é que o SUS já funciona, na prática, de forma regional. O cidadão faz exame em uma cidade, consulta especialista em outra e, se precisar de procedimentos complexos, pode ser atendido em um terceiro município. Mesmo assim, a gestão continua dividida em fronteiras municipais e estaduais, como se cada ente pudesse resolver isoladamente a própria demanda.
Essa fragmentação ajuda a explicar impasses recorrentes entre prefeitos e governos estaduais. Em muitos casos, cada gestor afirma que a responsabilidade é do outro lado. Ninguém estaria, do ponto de vista formal, necessariamente errado. O problema é estrutural: cada um administra apenas uma parte da rede, enquanto o paciente atravessa o sistema inteiro.
Na prática, o professor defende que o financiamento deveria fortalecer as regiões de saúde, e não se dispersar entre milhares de municípios sem coordenação efetiva. A proposta é que os recursos acompanhem uma rede regional capaz de decidir onde manter hospitais, ampliar ambulatórios, contratar serviços especializados e investir em atenção básica, com decisões integradas.
As filas também expõem a falta de integração
Outro ponto destacado é que as filas no SUS nem sempre são fruto apenas de escassez de dinheiro. Muitas vezes, elas nascem de sistemas que não conversam entre si. O município cria uma fila, o Estado organiza outra, e o paciente entra nas duas. Se consegue atendimento em uma ponta, segue aguardando na outra.
O exemplo da região metropolitana de São Paulo ilustra essa dificuldade. Ali coexistem uma rede estadual e uma rede municipal de boa estrutura, mas que operam como sistemas autônomos, com fluxos e regulações próprios. Quem precisa de atendimento não enxerga essa divisão administrativa; quer apenas resolver o problema de saúde.
Esse é, para Vecina Neto, um dos temas menos debatidos nas campanhas: a regionalização. O paciente não adoece dentro de limites municipais. Ele percorre a rede de serviços, e a gestão precisa refletir isso.
Médicos, envelhecimento e cuidado contínuo
O texto também questiona a ideia de que basta formar mais médicos para resolver a falta de profissionais. Ampliar vagas é importante, mas não suficiente. O profissional tende a se fixar onde encontra hospital funcionando, possibilidade de residência, equipes estruturadas e perspectiva de carreira.
Além disso, o país vive uma mudança demográfica acelerada. A população brasileira está envelhecendo, e isso altera a demanda por serviços. O cuidado deixa de ser pontual e passa a exigir acompanhamento permanente de pacientes com doenças crônicas, uso contínuo de medicamentos e atuação de múltiplos profissionais.
Esse cenário reforça a necessidade de integração entre atenção básica, serviços especializados e rede hospitalar. Para o autor, esse tipo de assistência não se organiza município por município.
Tecnologia ajuda, mas só se houver interoperabilidade
O texto aponta ainda que a incorporação de tecnologias terá papel importante nas propostas para a saúde. Inteligência artificial, telemedicina, prontuário eletrônico e sistemas de informação podem melhorar o atendimento. Mas há uma condição essencial: eles precisam conversar entre si.
Sem interoperabilidade, a informatização isolada resolve pouco. O exemplo dado é simples: um paciente faz exames em uma unidade na região do Morumbi e depois procura atendimento na Ponte Pequena. Os exames existem, mas muitas vezes não podem ser acessados pelo novo médico, o que leva à repetição de testes já feitos. O problema não é falta de tecnologia, mas de integração entre sistemas.
Segundo essa leitura, resolver a interoperabilidade pode gerar mais ganho prático ao cidadão do que informatizar unidades de forma isolada.
Produção nacional e relação com a saúde suplementar
A análise também inclui a capacidade do país de produzir medicamentos, vacinas, equipamentos e outros insumos. A pandemia expôs a dependência brasileira de cadeias externas e mostrou que ter recursos financeiros não basta quando o mundo inteiro disputa os mesmos produtos ao mesmo tempo. Nesse contexto, a política industrial da saúde passou a ser vista como componente estratégico para sustentar um sistema universal.
Outro ponto considerado é a relação entre SUS e saúde suplementar. Embora muitas vezes tratados como sistemas separados, eles se cruzam o tempo todo. Quem tem plano de saúde usa o SUS para vacinação, transplantes, vigilância epidemiológica, medicamentos de alto custo e procedimentos complexos. Ao mesmo tempo, usuários do SUS recorrem ao setor privado quando podem pagar por consultas ou exames.
Por isso, o texto sustenta que a saúde não se resume ao acesso a uma rede privada ou pública. Ela depende de prevenção, promoção, atenção primária, cuidado especializado e integração entre os níveis de atendimento.
O que deveria entrar na pauta dos candidatos
Ao fim, a crítica é clara: o debate eleitoral precisa olhar menos para problemas isolados e mais para a arquitetura do sistema. Financiamento, filas, falta de médicos, produção de insumos, inovação tecnológica e relação com a rede privada são temas essenciais. Mas nenhum deles será resolvido de forma consistente se cada gestor continuar respondendo apenas pelo próprio pedaço da estrutura.
O SUS foi concebido há quase quatro décadas. Desde então, o país envelheceu, as doenças mudaram e a medicina incorporou novas tecnologias. Para Vecina Neto, a pergunta que candidatos deveriam responder não é apenas quanto pretendem gastar. A questão decisiva é como reorganizar o sistema universal para atender às necessidades da população de hoje.
Em nossa análise editorial, esse é o tipo de debate que tende a separar promessa de gestão real: não se trata só de ampliar orçamento, mas de redesenhar a forma como o cuidado circula pelo país.
é professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP). O texto a seguir foi originalmente publicado no site The Conversation, que reúne artigos escritos por cientistas.
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