Cabedelo acordou nesta terça-feira, 14 de abril, diante de uma cena que já não surpreende, apenas preocupa: dois dias depois de ser eleito na eleição suplementar do último domingo, 12 de abril, o prefeito Edvaldo Neto (Avante) foi afastado cautelarmente do cargo durante a deflagração da Operação Cítrico, realizada pela Polícia Federal em conjunto com o Gaeco e a Controladoria-Geral da União. Segundo a investigação, há suspeita de fraude em licitações, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e possível financiamento de facção criminosa com atuação no município. A apuração fala em contratos supostamente usados para beneficiar empresas ligadas à facção “Tropa do Amigão”, com valores investigados que podem chegar a R$ 270 milhões.
O dado mais duro é que o caso não atinge apenas um prefeito recém-eleito. Ele atinge a já combalida ideia de normalidade administrativa em Cabedelo. No domingo, Edvaldo havia sido proclamado vencedor pela Justiça Eleitoral com 16.180 votos, o equivalente a 61,21% dos votos válidos, em um pleito suplementar marcado por 42,5% de abstenção. Era, em tese, o começo de uma tentativa de reorganização política. Na prática, a cidade mergulhou de novo no noticiário policial e judicial antes mesmo de respirar o resultado das urnas.
O problema é que Cabedelo não está diante de um episódio isolado. A eleição suplementar deste ano só aconteceu porque o TSE manteve, em 7 de abril, a cassação do prefeito André Coutinho e da vice Camila Holanda, por abuso de poder político e econômico e compra de votos nas eleições de 2024. Na mesma decisão, o ex-prefeito Vitor Hugo também foi declarado inelegível. De acordo com o Ministério Público Federal, o caso já apontava nomeações de pessoas ligadas à facção “Tropa do Amigão”, coação de eleitores e uso da máquina pública em favor de um projeto político contaminado pela influência do crime organizado.
Antes disso, em novembro de 2024, Vitor Hugo e André Coutinho já haviam sido alvos de operação da Polícia Federal que investigava aliciamento violento de eleitores e influência de organização criminosa no pleito municipal. E, voltando ainda mais no tempo, Cabedelo já havia vivido em 2018 o terremoto da Operação Xeque-Mate, que levou à prisão do então prefeito Leto Viana, além do afastamento de dezenas de servidores e do desmonte de um esquema de corrupção que abalou profundamente a cidade. Não se trata, portanto, de uma crise repentina. Trata-se de uma recorrência.
É isso que torna o caso de agora ainda mais grave. Cabedelo não sofre apenas com a troca de nomes no comando da prefeitura; sofre com a incapacidade de estabilizar sua vida institucional. A cada nova eleição, a cidade parece tentar virar a página. Mas a página seguinte sempre traz outra operação, outra denúncia, outro afastamento, outra ruptura. O prejuízo maior não é apenas político. É administrativo, social e moral. Uma cidade estratégica para a economia da Paraíba continua refém de uma sucessão de crises que impedem planejamento, corroem a confiança pública e aprofundam o sentimento de insegurança sobre quem, de fato, governa Cabedelo.
No fundo, a notícia desta terça-feira não fala só sobre Edvaldo Neto. Fala sobre uma cidade que, há anos, vem sendo empurrada de escândalo em escândalo, sem conseguir reencontrar estabilidade. Cabedelo não precisa apenas de um novo gestor. Precisa romper, de uma vez por todas, com o ciclo político que a colocou numa espécie de plantão permanente de crise. Enquanto isso não acontecer, a cidade seguirá votando sob o peso da esperança — e governando sob a sombra da incerteza.
Por: Napoleão Soares








