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Home Política

Quando o poder sobe a cabeça desaparece o coração

Napoleão Soares Por Napoleão Soares
19/01/2017
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Quando o poder sobe a cabeça desaparece o coração
Alfredo Stroni e a República Velha
Alfredo Stroni e a República Velha

Algumas vezes sobre essa estranha manifestação que algumas pessoas são cometidas quando recebem ou detém alguma parcela de poder. Mudam seus hábitos, engrossam a fala, começam a andar de forma diferente, mudam a vestimenta e principalmente mudam radicalmente as relações pessoais. Além disso, começam a se revelar como pessoas que se acham muito melhores que toda a humanidade. De uma hora para outra se tornam autoritárias com seus subordinados. Ao invés de diálogo, apenas um monólogo com gritos para dizer quem de fato manda no pedaço.
Outra das principais características de uma pessoa como essa é se achar muito mais esperta que as demais. Ao conseguirem estudar e terminar seus estudos profissionais alegam competência, se conseguem um lugar ao sol no mundo capitalista, alegam ter se empenhado mais que as outras pessoas e se fazem parte do mundo da política, aí sim que a coisa se complica mais ainda. Ou se lançam como salvador da pátria, ou seja, aquele que em nome da população, se colocará a serviço dela a qualquer hora do dia e da noite ou então tratam o povo humilde como “garrafinha” e os que pensam como desprovidos de “garrafinhas” e assim sem poder de competição.
Como podemos classifica-las? Loucas? Hipócritas? Oportunistas? Ou simplesmente ignorá-las seria a solução?
O psicanalista J. Lacan observou que a partir do momento em que alguém se vê “rei”, ele muda sua personalidade. Um cidadão qualquer quando sobe ao poder, altera seu psiquismo. Seu olhar sobre os outros será diferente; admita ou não ele olhará “de cima” os seus “governados”, os “comandados”, os “coordenados”, enfim, os demais inferiores a ele. Alguém que não é bom se misturar.
Raymundo Lima comenta: “Estar no poder, diz Lacan, dá um sentido interiormente diferente às suas paixões, aos seus desígnios, à sua estupidez mesmo”. Pelo simples fato de agora ser “rei”, tudo deverá girar em função do que representa a realeza. Também os “comandados” são levados pelas circunstâncias a vê-lo como o “rei do pedaço”.
Ainda segundo Raymundo, essas pessoas, uma vez no poder, começa a ter uma enorme resistência em fazer autocrítica. “Antes, vivia criticando tudo que era governo ou tudo que constituía como efeito de governo, mas, logo que passa a ocupar o poder, revela “sua outra face”, não suportando a mínima crítica”. “O poder os torna cegos e surdos à crítica…” Há um provérbio oriental que diz: “quem vence dragões, também vira dragão”.
A partir de seus estudos Michel Foucault nos leva ao entendimento de que o poder está à margem da loucura. Assim podemos afirmar que essas pessoas que se transformam com o poder, são loucos conscientes, o que é pior, pois não temos a menor noção do que poderão fazer com esse brinquedinho às mãos.
Uma coisa é certa: só usa as estruturas de poder sem se contaminar, quem enxerga esses espaços como um meio para as mudanças efetivas na sociedade e não como um fim em si mesmo. A resistência a situações como essa, faz parte da preservação da boa política ou até mesmo da preservação da própria humanidade, contra esses falsos líderes ou “reis” como eles gostam de ser comparados.
Por outro lado, não dá para ficar neutro diante de pessoas que se transformam diante do poder. Viram “monstros” somente para a manutenção de suas vaidades. E o pior, necessita sempre de alguém a servi-los, transformando-os em escravos de luxo e aprofundando ainda mais as desigualdades políticas, sociais e econômicas.
Dizia Paulo Freire: “Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor. É optar por ele”.

Napoleão Soares com Antônio Lopes Cordeiro (pesquisador em gestão pública e social)

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