“Bosque das Orquídeas”: o novo endereço de Ricardo Coutinho

O ex-governador Ricardo Coutinho, mentor de uma Era na Paraíba, trocou a azáfama na Granja Santana e no Palácio da Redenção por um espaço em condomínio de nome aprazível, apropriado para a etapa de “refrigério” que espera usufruir por algum tempo até “desencarnar” de oito anos de governo. No “Bosque das Orquídeas”, no entorno do Altiplano Cabo Branco, Coutinho, desde ontem, o ex-governador pode lamber a cria, contemplando, a partir de vista panorâmica, obras que compõem a sementeira deixada inegavelmente como legado que, no dizer do novo inquilino do poder, João Azevedo, não pode deixar de ser preservado.

Quem conhece Ricardo sabe, muito bem, que o “repouso do guerreiro” é relativo. Se desencarnou do exercício propriamente dito do poder, ele não desencarna dos embates, dos enfrentamentos. Isto é da sua natureza, está enraizado no seu DNA. Claro que precisará ter o cuidado de não buscar uma visibilidade que ofusque a necessária massificação da Era João, impondo-se a dieta de dourar a pílula de modo a deixar o sucessor e sua cria política ganhar asas para se habilitar ao selo da perpetuidade a que aludiu o ministro José Américo de Almeida em oração antológica. Enquanto João Azevedo tocará o barco, fazendo valer o slogan cunhado ontem no teatro A Pedra do Reino – “Segue o Trabalho” – Ricardo acumulará energias para se pôr a serviço de embates e enfrentamentos, com os adversários do socialismo tupiniquim de que foi arauto. Será, inclusive, uma tática adequada para deixar Azevedo livre para o contencioso administrativo, que não será fácil, devido à incógnita quanto aos humores que exalarão de Brasília da parte do presidente Jair Bolsonaro, que assumiu escudado em generais e acenos de populismo mas jogando duro, como se deu ao revogar simbolicamente, no discurso, o socialismo e o politicamente correto.

É essencial que fique claro o seguinte: Ricardo Vieira Coutinho será o grande advogado, pessoal e intransferível, do seu próprio legado, o que inclui os erros ou as omissões assinaladas, sem prejuízo da massa de obras com que brindou a população paraibana e do estilo que, conquanto extremadamente personalista, produziu frutos coletivos, como o Orçamento Democrático e a façanha de retirar os municípios do Estado do isolamento. De quebra, ornamentam a Era Ricardo os talentos que ele exibiu como administrador, garantindo o equilíbrio fiscal e financeiro, desafiando uma conjuntura madrasta, que passou, inclusive, pela má vontade do pífio governo Temer, avaro nos repasses e no diálogo para com Estados como a Paraíba devido à postura de altivez e independência de um governante que não se rendeu ao impeachment de Dilma Rousseff nem absorveu a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva.

Abstraindo idiossincrasias obsessivas, como a insistência em avaliar a Paraíba como bem na fita da criminalidade e da violência, brigando com a constatação de que a Segurança foi um ponto fora da curva na sua Era, Ricardo tem o beneplácito do reconhecimento de que fez História. Não chegou, como deu a entender, a reinventar a Paraíba, mas tornou-a diferente, com o timbre da sua assinatura inconfundível, pontuada por entrelinhas de concepções distintas das que inspiraram antecessores. Quanto aos embates, preparem-se Luciano Cartaxo, José Maranhão, Romero Rodrigues e Cássio Cunha Lima. Ricardo está afiadíssimo para o jogo das palavras, terreno em que também é muito bom. A expectativa junto ao povo paraibano é a de quem aguarda para conferir promessas e, assim, poder contar a História para quem interessar possa.

Os Guedes



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