A prisão de Ricardo: da ‘glória’ do poder à ruína na política

A Paraíba já experimentou páginas tristes, mas agora vive, nesse tempo presente, uma das mais sombrias de sua história. A prisão de um ex-governador nas circunstâncias que o nosso Estado e o Brasil assistem é constrangedora. Desoladora até, em se tratando de um político que construiu sua história e biografia em cima do pilar da renovação de práticas e costumes na vida pública.

Uma bandeira política admirável que rendeu ascendência, liderança e poder. Muito poder. Poder que, agora se vê, exercido na prática por métodos bem diferentes dos compromissos republicanos assumidos solenemente nas campanhas e mandatos. Um poder que assoberbou.

Erguido por retórica articulada para uma imagem capaz de arrebatar multidões e milhares de votos, Ricardo Coutinho – de trajetória incomum para os padrões paraibanos – viveu o apogeu desse poder e, por tudo que vai se descortinando, se encantou demais com ele e se perdeu no caminho.

Intimidou com instrumentos diversos todos que ousassem divergir, contrariar ou atravessar seu caminho. Controlou contrapesos e poderes, por meios oficiosos ou nem tanto, e cometeu o grande equívoco de pensar e agir como se o mundo fosse seu ou orbitasse em seu entorno.

Usou e abusou. Os desvios milionários, a estratégia denunciada pelo MP de sangrar contratos para financiar projetos políticos e abastecer mesadas, todos descritos por alguns dos seus antigos braços direitos e operadores, revelam limites rompidos com espantosa certeza de impunidade.

Era um projeto de poder acima de qualquer obstáculo, com fins aparentemente nobres justificados por meios escusos. No seu auge, em 2018, elegeu quase todos que quis. Derrotou praticamente todos que mirou. Um ano depois, a história é passada a limpo, em surpreendente terremoto que derrubou paredes de presunção e colunas de arrogância.

A imagem que a Paraíba pensou que guardaria de Ricardo Coutinho, seu governador duas vezes, para o livro de sua história, definitivamente, não era essa que se viu hoje. E repito, na primeira pessoa do singular mesmo: não é cena para ser festejada por ninguém. Nem mesmo por aqueles terrivelmente feridos na sua guerra pelo poder.

Heron Cid



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