A seleção brasileira inicia a caminhada na Copa do Mundo hoje, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos, carregando uma sensação incomum para um país acostumado a chegar aos Mundiais cercado de certezas, expectativas e favoritos definidos. Há décadas o Brasil não desembarcava em uma Copa com tantas dúvidas sobre seu potencial real quanto agora.
Talvez seja preciso voltar a 2002 ou até mesmo a 1994 para encontrar um cenário semelhante. Em ambos os casos, a desconfiança era enorme.
Em 1994, a seleção carregava o peso da chamada “era Dunga”, era criticada pelo estilo de jogo e convivia com a pressão de encerrar um jejum de 24 anos sem título mundial.
Em 2002, Luiz Felipe Scolari embarcou para a Ásia contestado, ouvindo pedidos por Romário e ainda convivendo com o trauma da derrota para Honduras que eliminou o Brasil da Copa América um ano antes.
O contexto atual tem semelhanças evidentes. O ciclo até a Copa foi marcado por turbulências constantes, trocas de comando, resultados decepcionantes e derrotas inéditas.
O Brasil perdeu para o Japão pela primeira vez na história com a seleção principal, passou pelas eliminatórias sem empolgar e chegou ao Mundial sem construir uma identidade sólida ao longo dos anos. Vini Jr. não mostrou preocupação por isso na entrevista na véspera do jogo.
“A gente chega para ser campeão. Estamos no nível das grandes seleções, das grandes equipes. Temos grandes jogadores e evoluímos nos últimos meses. Na Copa, tudo zera. Não importa quem ganhou a Eurocopa, a Copa América. A Copa pra gente começa amanhã, estamos aqui para fazer história”, afirmou.
O resultado desse processo é uma seleção que inicia a competição sem transmitir segurança nem para a torcida nem para a imprensa. Nem mesmo Carlo Ancelotti, contratado para dar estabilidade ao projeto, conseguiu chegar à estreia com uma equipe consolidada. É possível afirmar que se não fosse o tamanho do currículo do técnico, o time começaria a trajetória em crise.
O contraste com as últimas Copas é grande. Em 2022, sob o comando de Tite, o Brasil chegou ao Qatar sem derrotas nas eliminatórias e cercado pela convicção de que um ciclo completo de trabalho havia preparado a equipe para qualquer cenário. A eliminação veio nas quartas de final, mas a sensação antes da estreia era de confiança quase absoluta.
Em 2018, o otimismo também era elevado. A chegada de Tite havia transformado uma seleção que chegou a correr risco de ficar fora do Mundial. Neymar ainda vivia grande fase, Gabriel Jesus era um dos atacantes mais valorizados do futebol mundial e o ambiente era de recuperação após anos de instabilidade.
Em 2014, apesar das dúvidas sobre o nível técnico da equipe, a seleção tinha o apoio incondicional das arquibancadas. Neymar disputava sua primeira Copa e era o símbolo de um grupo que havia conquistado a Copa das Confederações com autoridade um ano antes.
Em 2010, o futebol apresentado por Dunga não encantava, mas o time transmitia competitividade. O Brasil havia sido líder das eliminatórias, campeão da Copa América de 2007 e da Copa das Confederações de 2009. Era uma equipe difícil de ser derrotada.
Em 2006, a empolgação era enorme por causa do chamado quadrado mágico. Em 1998, a seleção ainda surfava na onda do tetra conquistado nos Estados Unidos, tinha Ronaldo como principal estrela do planeta e chegava respaldada pelo trabalho de Zagallo.
Agora, o sentimento é diferente. O Brasil inicia a Copa sem a convicção de possuir um time pronto, sem um ciclo que tenha produzido respostas definitivas e sem o favoritismo que tradicionalmente acompanha a camisa amarela. Ancelotti mostra concordar com a falta de favoritismo, mas entende que a equipe é competitiva para enfrentar qualquer um.
“Vencer é difícil de dizer, mas vamos competir. Claro que vamos competir. Vencer tem detalhes no futebol. O sentimento hoje é que temos um sentimento muito bom para esse primeiro jogo”, analisou.
Paradoxalmente, é justamente esse ambiente de incerteza que aproxima a seleção de dois dos capítulos mais vitoriosos de sua história recente. Em 1994 e em 2002, o Brasil também embarcou cercado por dúvidas. Voltou para casa campeão. Hoje essa trajetória começa novamente.
BRASIL
Alisson, Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Lucas Paquetá, Matheus Cunha, Vini Jr e Raphinha
Técnico: Carlo Ancelotti
MARROCOS
Bono; Hakimi, Diop, Riad e Mazraoui; Bouaddi e El Aynaoui; Brahim Díaz, Ounahi e Rahimi; Saibari.
Técnico: Mohamed Ouahbi
Horário: 19h (horário de Brasília)
Local: MetLife Stadium, em Nova Jersey
Árbitro: Slavko Vincic (Eslovênia)
Assistentes: Tomaz Klancnik (Eslovênia) e Andraz Kovacic (Eslovênia)
VAR: Bastian Dankert (ALE)
4º árbitro: Sandro Schaerer (Suíça)
Uol







