Integrantes da cúpula de partidos do Centrão reforçaram a intenção de adotar a neutralidade na corrida presidencial após o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, aparecer em diálogos pedindo dinheiro ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. União Brasil, PP e Republicanos, cobiçados pela fatia robusta de fundo eleitoral e tempo de televisão, ainda não bateram o martelo sobre a decisão, mas a tendência é liberar os filiados para apoiar o candidato que desejarem. A crise provocada pelas revelações também interrompeu negociações regionais para a formação de palanques nas eleições deste ano e alterou o panorama em alguns estados.
Desde que foi escolhido por Jair Bolsonaro para concorrer ao Palácio do Planalto, Flávio nunca teve o aval das cúpulas dos principais partidos do Centrão. Essas legendas, porém, mantêm pontes com o bolsonarismo e incentivaram uma aproximação.
O PL, por sua vez, marcou para hoje uma reunião entre Flávio e as bancadas de senadores e de deputados federais do partido. Será a primeira grande reunião da sigla após a crise deflagrada com a divulgação das mensagens.
Novo foco e mágoas
No PP, um integrante da Executiva Nacional diz que o melhor formato para a legenda na disputa deste ano é aquele que permite a eleição do maior número de deputados federais e senadores. Para esse objetivo, a neutralidade seria o melhor caminho, já que líderes locais ficariam livres para construir alianças que os fortaleçam nos seus estados — o que em algumas regiões se traduz em aproximação com o presidente Lula e, em outras, com o bolsonarismo e outros grupos da direita.
Nas últimas semanas, a crise do Master provocou um afastamento entre Flávio e lideranças do Progressistas. Há duas semanas, a Polícia Federal fez operação de busca e apreensão contra o presidente da sigla, Ciro Nogueira (PI), após identificar mensagens em que Vorcaro questiona seu primo, Felipe Vorcaro, sobre o atraso nos pagamentos destinados ao senador. No mesmo dia da operação da PF, Flávio deu declarações que indicavam o afastamento de Ciro Nogueira, o que irritou a cúpula do PP.
Investigadores consideram que esses repasses eram propina em troca do favorecimento do Master na elaboração de legislação sobre o limite de proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A operação ocorreu dias antes da divulgação, pelo site Intercept Brasil, de mensagens, áudios e documentos que apontam negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar “Dark horse”, filme sobre a trajetória política do ex-presidente. Segundo a publicação, o acordo previa aportes de cerca de R$ 134 milhões. Desse total, foram repassados cerca de R$ 61 milhões.
Já alguns parlamentares do Centrão mais ligados à direita chegaram a sugerir até alguns nomes para substituir Flávio na disputa. Esse grupo tenta emplacar uma chapa com a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como candidata a presidente e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) na vice. A discussão, no entanto, não está na mesa e os nomes não são tratados pelas cúpulas das legendas.
— Não conversei com ninguém sobre o assunto — diz o presidente do Republicanos, deputado Marcos Pereira (SP).
O deputado Elmar Nascimento (União-BA), um dos vice-presidentes nacionais da legenda, vai na mesma linha. Por sua vez, o deputado Cláudio Cajado (PP-BA), também um dos vice-presidentes nacionais de sua sigla, diz que o assunto é citado por alguns parlamentares.
— Tem um grupo querendo, mas as lideranças não — afirma.
Diante dos desdobramentos do caso Master, líderes estaduais passaram a recalcular o custo de atrelar suas campanhas ao projeto presidencial do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em Santa Catarina, a perspectiva era que Flávio tivesse um palanque duplo, em um estado de maioria bolsonarista, mas agora a tendência é que o PL fique isolado no palanque do presidenciável.
Lá, o governador Jorginho Mello (PL), que busca a reeleição, e o ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues (PSD), que enfrentará o atual gestor, eram esperados na base de sustentação a Flávio.
Após a divulgação das mensagens, porém, o pré-candidato do PSD disse que deve dar um palanque único para Ronaldo Caiado, pré-candidato de seu partido a presidente, e buscar se desvincular de Flávio. O pré-candidato a governador, no entanto, diz que não criticará Flávio durante a campanha:
— Ficar em silêncio é o melhor caminho.
Na Bahia, o cenário também passou a exigir cautela maior. Apesar da tendência de convivência regional entre o bolsonarismo e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União), interlocutores afirmam que a cúpula da federação União-PP freou as tratativas nacionais com Flávio.
Crise entre o Novo e PL
O primeiro grande efeito político concreto apareceu em Minas Gerais. A decisão do ex-governador Romeu Zema (Novo) de endurecer publicamente os ataques contra Flávio aprofundou o isolamento político do governador Mateus Simões (PSD), que busca a reeleição, junto ao bolsonarismo e contaminou negociações nacionais do PL com o Novo.
Poucas horas após a divulgação da reportagem do Intercept Brasil, Zema afirmou ser “imperdoável” ouvir Flávio pedindo dinheiro a Vorcaro.
A reação provocou forte irritação no PL. O líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), afirmou que o discurso de Zema ameaça acordos estaduais. Interlocutores do partido afirmam que a crise consolidou a decisão de abandonar qualquer tentativa de composição com o grupo de Zema em Minas e aprofundou a aproximação com o Republicanos, do senador Cleitinho Azevedo.
No Ceará, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), que tenta voltar ao cargo, passou a defender que a campanha estadual evite a nacionalização. Ciro lançou sua pré-candidatura no sábado, e contou com a presença de integrantes do PL do Ceará.
— Ciro não vai tratar de Presidência. Somente de governo do estado — disse o deputado Mauro Benevides Filho (União-CE), um dos principais aliados de Ciro no estado.
A reunião de hoje do PL será a primeira que reunirá várias lideranças da sigla. O presidenciável do PL já fez diversos encontros desde que o caso veio à tona, mas foram com participação mais restrita. Desde quarta, Flávio já se aconselhou com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, Rogério Marinho (PL-RN), que será o coordenador de sua campanha, e o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro.
O que pesa para os partidos do Centrão
- PP foca na eleição de deputados federais: a prioridade do partido é eleger o maior número de deputados federais e senadores. Assim, a neutralidade é o melhor caminho na eleição presidencial, já que líderes locais ficam livres para construir alianças que os fortaleçam nos seus estados, o que em algumas regiões se traduz em aproximação com Lula e em outras com o bolsonarismo e outros grupos da direita.
- União Brasil dividido: com ministros no governo Lula e uma ala próxima do bolsonarismo, o partido caminha para ficar neutro nas eleições presidenciais, o que precisa ser alinhado com o PP, partido com o qual forma uma federação. A derrota de Jorge Messias para o STF, articulada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afasta ainda mais o União Brasil de uma aliança com Lula.
- Insatisfação no Republicanos: o Republicanos foi preterido, até o momento, nas negociações sobre alianças tanto por Flávio Bolsonaro quanto pelo presidente Lula, o que incomoda o partido. O presidente da sigla, deputado Marcos Pereira (SP), já reclamou da pressão do PL para filiar o governador Tarcísio de Freitas e sinalizou que o caminho é se manter neutro nas eleições nacionais e liberar os diretórios estaduais.
Oglobo.glob.com







