A disputa presidencial polarizou na reta final entre Haddad e Bolsonaro

Salvo fato excepcional, que não está na lógica das análises políticas vigentes, a eleição presidencial a ser travada a sete de outubro em primeiro turno demorou mas polarizou entre a extrema-direita, representada pelo candidato Jair Bolsonaro e a extrema-esquerda, não propriamente simbolizada pelo PT, mas ora convergente em torno de Fernando Haddad, o ungido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que dá as cartas de dentro do presídio de Curitiba, num raro privilégio conferido a presidiários.

A esta altura, malgrado expectativas que teimam em perdurar, tomou “doril” o espaço acalentado avidamente por postulantes que intentaram identificar-se como representantes do Centro – uma designação imprecisa que procura se sobrepor a extremos ou radicalizações ideológicas. Perseguiram esse rótulo candidatos como Geraldo Alckmin, do PSDB, Henrique Meirelles, do MDB, Ciro Gomes, do PDT, João Amoêdo e outros novatos. Por antecipação, o pleito já decretou o fim da polarização entre PSDB e PT que vinha alimentando os embates políticos-eleitorais há décadas. Sabe-se, concretamente, que o PSDB está fora do recorte de uma eleição atípica sob todos os pontos de vista. O PT se mantém no páreo, simbolizado pela figura de Haddad, espécie de encarnação de Luiz Inácio Lula da Silva. E a direita, que andou testando quadros a partir de movimentos elitistas que pipocaram em São Paulo, na Fiesp, viu-se compelida a engolir um capitão reformado do Exército, o Bolsonaro, que confessa abertamente não entender de nada e que sairá do primeiro turno como uma incógnita para o cidadão mais exigente, aquele que cobra posições claras dos pretensos postulantes em quem vai votar.

Não fosse a sua agressividade, atirando a esmo contra mulheres, negros, homossexuais, transgêneros e intelectuais progressistas, Bolsonaro passaria à história da eleição como um candidato insípido e inodoro, a respeito do qual pouco se sabe, pouco se conhece e pouco interessa o que ele pensa ou o que pode fazer. O capitão tornou-se o representante dos despossuídos de ideias mais sólidas envolvendo o Brasil que se quer, de verdade. É expressão, por assim dizer, dos que se cansaram de embates políticos e ideológicos porque não se sentiram beneficiados nessa porfia e estão com preguiça de perder tempo avaliando propostas e buscando, com uma lupa, boas intenções. Não é que o eleitor médio tenha mandado às favas os escrúpulos ou o bom senso. É que, de ser tão sacaneado (desculpem a expressão) por pseudos-salvadores da Pátria, por múmias da redenção milagrosa, acordaram e decidiram reagir. Pouco se lhes dá se estarão, com seu voto, empurrando o país para o precipício ou não. Como no poema sobre o gaúcho, de AscensoFerreira, o que esse tipo de eleitor quer mesmo é “rosetar”, seja lá o que isto signifique, por avaliar que já foi “rosetado” demais pelos pregoeiros de promessas inviáveis e, portanto, demagógicas.

Não faltará quem diga que poderia ser diferente o cenário – e esta é uma verdade tão acaciana que não se contesta. Ocorre que não foram criadas condições objetivas para tanto. A diferença que se pretendia, ou se cogitava, é a que se tem na praça a dados de hoje, e já foi gasto demasiado tempo na busca de alternativas que, de antemão, todos sabemos serem inviáveis. A verdade, nua e crua, é que estamos fechando um ciclo no Brasil – bem ou mal dentro de condições democráticas possíveis. É nesse contexto que proliferam algumas aberrações, pondo em jogo a própria conduta de órgãos judiciários como o Supremo Tribunal Federal. É preferível imaginar que precisamos enfrentar esse mal como necessidade para purgar os vícios e pecados do sistema político-institucional brasileiro. Sempre se paga um preço pelas mutações – e um preço elevado, independente da ocorrência ou não de vítimas ostensivas.

Os Guedes



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